O Arrependimento da Semana: A Geometria do Afeto e o Polímata de Papel
Sou um polímata por natureza e advogado por teimosia. Minha mente é um labirinto onde Spinoza toma café com algoritmos esquecidos, enquanto Leonardo da Vinci tenta, sem sucesso, organizar meu déficit de atenção. Tenho essa memória excelente, quase cruel, que funciona como um museu de arrependimentos: cada erro meu está exposto com iluminação de gala e legenda em latim.
Esta semana, o quadro principal da minha galeria de culpas é o meu desempenho matrimonial.
A Teoria vs. A Práxis
Lendo Leo Buscaglia, fui confrontado pela ideia de que o amor é uma arte dinâmica. Logo eu, que entendo a teoria da luz mas vivo tropeçando nos móveis da sala. Decidi, então, aplicar as "Cinco Linguagens do Amor" de Gary Chapman. O problema? Sou um poliglota das ideias, mas um analfabeto dos gestos.
Enquanto minha esposa fala a linguagem do "Tempo de Qualidade", eu estou em outra dimensão, decifrando a queda de um império ou a sintaxe de um poema de rimas pobres. Eu estou lá, mas não estou. Sou um "habeas corpus" de mim mesmo: meu corpo está presente, mas minha alma pediu liminar para morar na biblioteca.
A Sintaxe do Silêncio
Ser um cara legal, fiel e apaixonado é o básico do "contrato social" do casamento. Mas o amor poético, aquele que Buscaglia descreve, exige uma presença que não cabe em notas de rodapé.
O Arrependimento: Perceber que decorei o mundo e esqueci o mapa do meu próprio lar.
A Falha: Minha inércia existencial é charmosa nos livros, mas é um entulho no cotidiano.
A Tragédia: Eu sei descrever o pôr do sol em três línguas, mas esqueço de segurar a mão de quem caminha ao meu lado para vê-lo.
Veredito: Humano, Demasiado Humano
Sou este ser que habita o abismo entre o Logos (o saber) e a Praxis (o fazer). Sou o advogado que ganha causas impossíveis no tribunal, mas perde o prazo de validade do carinho por pura distração metafísica.
A vida é, de fato, essa ópera repetitiva. O libreto desta semana diz que eu deveria ser um marido melhor. Os cantores mudam, mas a música da minha falha continua a mesma: penso muito, resolvo pouco. No fundo, talvez a verdadeira linguagem do amor não esteja nos livros que devoro, mas no silêncio de quando fecho a capa e, finalmente, olho para o lado. Afinal, ser humano é tragédia suficiente; não preciso torná-la um processo sem fim.
